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  • Marcio Nobre

Sobre persistência e finalizar o que começou, meu avô estava certo!

Atualizado: Ago 2


Nada fazia sentido pra mim, entrei na faculdade porque no trabalho falaram que seria uma ótima profissão.


O vestibular foi pró-forma, pois era uma faculdade particular, mesmo assim minha classificação foi péssima, fiquei para as vagas remanescentes.


Entrei para faculdade… primeiro dia e todos já estavam se falando, parecia que já se conheciam. Imagine um tímido neste meio, me senti um peixe fora d’água.


Chega o primeiro professor e começa a aula de Introdução ao Direito, ótimo, acho que é assim que começa, pelo início.


Mas o cidadão vai buscar muito longe, desde o tempo da Grécia antiga para explicar as tais fontes do direito, o seu nascimento, etc e etc, cada vez que ele  falava a palavra “fonte” eu só conseguia imaginar as fontes de água que eu conhecia quando passava às férias na casa dos meus avós na pequena cidade de Capela do Alto, interior de São Paulo.


Veio o segundo professor, aula de filosofia do Direito, meu Deus, o que é isso? Parecia “grego” pra mim aqueles conceitos de direito naturaldireito positivo, direito positivo objetivo e subjetivoteoria de Kelsen


As aulas eram boas tenho certeza, me falavam até de Pontes de Miranda (veja aqui um resumo de que foi este grande jurista)! Eu é que não entendia patavina, nada fazia sentido.


Para piorar o cenário, eu era “pica-pau” em uma empresa de consultoria tributária e tinha que viajar a semana toda, por isso, geralmente eu só ia para a aula nas sextas feiras, cansado, até dormia na sala.


Um dos professores, Marcelo Laroca me apelidou de soneca. Certo dia eu acordei com um giz recebido na testa, o professor tinha boa pontaria: “acorda soneca!“, ele rindo e o resto da sala também… que situação.


No intervalo eu pedia emprestado o caderno da Patrícia Nazário, minha amiga até hoje.


Na faculdade ela era muito organizada e copiava tudo, praticamente transcrevia as aulas, eu corria até o bazar da esquina e tirava cópias para estudar no fim de semana e tentar entender todo aquele conteúdo, Paty meu sentimento é de gratidão eterna a você.


Minha dificuldade de aprendizado na faculdade foi tanto que no primeiro ano fiquei de exame em quase todas as matérias – de 12, fiquei em 8.


Foi muito desanimador, acabei passando de ano sem saber nada, esse exame era a salvação, onde o professor acabava dando uma mãozinha.


Meu avô materno ficou doente e fui visitá-lo, não aguentei e desabafei com ele meu descontentamento, falei que eu não aguentava mais e iria desistir da faculdade e do meu trabalho.


No meu trabalho me pagavam R$ 150,00 (na época o salário mínimo era 120,00 o ano era 1997), nesta época os outros funcionários ganhavam mais de R$ 400,00 por mês e o valor da mensalidade da faculdade era 280,00, nem preciso dizer que fiquei os 3 primeiros anos sem pagar a faculdade, fazia acordo todo final de ano para parcelar e tentar seguir em frente.


Ganhar pouco no trabalho, não entender nada na faculdade e ainda ficar devendo, aonde isso poderia me levar.


O meu avô era analfabeto, plantador de arroz em terra dos outros, mas era inteligente. Apesar de doente, ainda estava lúcido e falou comigo:


– Marcio, é normal você não entender nada, é tudo novo e você ainda não viu nada, tenha paciência… E lhe digo mais, a coisa ainda vai piorar, mas escute o seguinte: continue firme, prestando atenção, estudando, com humildade e uma hora as coisas vão se encaixar na sua mente.


E continuou:


– Em relação ao seu emprego, parece pouco o que você ganha, mas é esta a oportunidade que você tem para ganhar experiencia e se preparar para o futuro, portanto continue nele e tente aprender o máximo que puder. Não reclame, pelo contrário, seja grato e peça para lhe darem mais trabalho, um dia você verá que valeu a pena!


Voltei pra casa mais desanimado, esperava que ele fosse me apoiar em largar tudo!


Um dia cansado, bem cansado, felei com minha mãe também que queria desistir, comecei a desabafar a mesma estória, blá blá blá… a única diferença era de que eu já estava na metade do segundo ano da faculdade.


Mãe falou pra eu terminar o que comecei, persistir, mesmo com essas dificuldades, pois se eu parasse iria me arrepender e eu precisava terminar o que começava, pois desde criança começava algo e na metade largava, falou que eu era fogo de palha, tinha que mudar isso e a hora era agora.


Refleti sobre as falas dela e de meu avô e resolvi seguir em frente, aos trancos e barrancos, meio sem vontade, mas com o intuito de obedecê-los, coloquei na cabeça que a meta era terminar o que comecei.


Quando terminei o segundo ano, foi pior do que o anterior, a sensação de não saber nada era muito ruim, é como pegar uma estrada desconhecida a noite, sem iluminação, sem GPS e sem saber aonde vai dar.


Ano novo, 3º ano começa na faculdade, aula de Processo Civil com o professor William Santos Ferreira (atualmente Dr. e um dos maiores processualistas do País, veja aqui resumo de sua biografia), ele olha pra todos os alunos e me escolhe pra ler o artigo Xyz do Código de Processo Civil.


Eu não tinha levado o código pra aula e como ele percebeu, me escolheu, perguntou meu nome, respondi, ele anotou em sua caderneta e falou:


– Você tem 1 pondo negativo na nota, traga o código na próxima aula. Comecei o ano bem, pensei, eu não estou no lugar certo.


Preciso continuar e terminar, e já que estou aqui, peguei o puxão de orelha do professor como desafio e na próxima aula levei o código.


Ele não pediu pra eu ler, escolheu outro rsrs, mas prestei atenção na aula, em cada palavra, cada leitura do código e fui acompanhando.


Fui gostando das aulas de processo civil, as aulas dele na verdade começaram a fazer sentido pra mim, o que ele ia explicando fazia um link com outras coisas que eu achava totalmente sem contexto e que agora estavam se encaixando… boom!


A magia estava acontecendo!


O terceiro ano da faculdade foi o acontecimento mágico de que meu avô falou, “uma ora tudo se encaixa”, a cada aula e a cada estudo nos fins de semana (inclusive nas cópias do caderno de Patrícia) eu ficava mais animado, comecei a pegar gosto, tudo e absolutamente tudo começou a fazer muito sentido.


Neste ano, finalizei as provas e pra minha grata surpresa, e também para surpresa dos professores e dos colegas, obtive nota máxima em todas as disciplinas!


Isso mesmo, nota 10 em todas as matérias, alguns achavam até que eu tinha colado… mas, como falei, a magia do aprendizado aconteceu, fui parabenizado por cada professor e colega, pois sabiam das minhas dificuldades de aprendizado do começo e agora a ficha finalmente caiu.


Depois deste acontecimento mágico, o resto do curso, quarto e quinto anos foram bem mais fáceis, os estudos eram constantes mas fluíam na minha mente.


Quando chegou a vez do exame da OAB, conquistei a carteira na primeira tentativa e segui minha carreira que amo de paixão.


Aprendi na própria pele que em tudo na vida devemos persistir e tentar a cada dia melhorar.


O nosso objetivo é como se fosse uma grande escada na qual devemos subir apenas 1 degrau por vez e nunca desistir, principalmente quando sentir que teve que voltar alguns degraus.


E acima de tudo, ser grato por tudo e todos que passaram na sua vida.


E você? me conta como foi seu aprendizado jurídico, teve dificuldades? Algo inusitado aconteceu?


Aproveite aqui nos comentários, ficarei feliz em nos compartilhar um trecho de sua história acadêmica.

Gratidão pela leitura!




© 2019 por Palombina.

Planejador Jurídico
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